A Bíblia proíbe tatuagens? @DrMFrank

Da Lei à Graça: Uma Leitura Bíblica Responsável

Levítico 19:28

Introdução: O Dilema da Lei de Moisés

Para o leitor moderno, o Livro de Levítico pode parecer um emaranhado de regras desconexas, distantes da realidade contemporânea. No entanto, para o antigo Israel, essas leis não eram arbitrárias — elas formavam a estrutura de uma identidade espiritual. Israel foi chamado a ser um povo “santo” (kadosh), termo que significa, literalmente, separado para Deus:

  • “Sereis santos, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo.” (Livro de Levítico 19:2)

Essa santidade não era apenas moral, mas também visível, prática e comunitária. Cada aspecto da vida — alimentação, vestimenta, culto e até o corpo — comunicava pertencimento a Deus.


Christopher J. H. Wright observa que “a lei de Israel moldava uma cosmovisão completa, onde não havia separação entre o espiritual e o cotidiano”. Ou seja, até os detalhes aparentemente pequenos tinham significado teológico.

No entanto, o dilema surge quando o leitor contemporâneo se depara com essas leis e tenta aplicá-las diretamente hoje. Afinal:

Por que alguns mandamentos são frequentemente citados, enquanto outros são silenciosamente ignorados?

Por exemplo:

  • “Pelos mortos não dareis golpes na vossa carne; nem fareis marca alguma sobre vós…” (Livro de Levítico 19:28)
  • “Não se porá sobre ti veste de diversos estofos misturados.” (Livro de Levítico 19:19)

Ambos pertencem ao mesmo capítulo, ao mesmo contexto e à mesma aliança. Ainda assim, na prática cristã moderna, um é frequentemente debatido nos púlpitos, enquanto o outro raramente é considerado no cotidiano.

Esse contraste revela um problema mais profundo:
não é apenas uma questão sobre tatuagens, mas sobre como lemos e interpretamos toda a Bíblia.

Gordon D. Fee afirma que “um texto fora de seu contexto se torna um pretexto”, alertando para o perigo de leituras seletivas.

Da mesma forma, N. T. Wright destaca que as Escrituras devem ser entendidas dentro da grande narrativa de Deus — criação, queda, redenção e nova criação.

O próprio Novo Testamento reconhece que a Lei tinha um propósito pedagógico e temporário:

  • “De maneira que a lei nos serviu de aio para nos conduzir a Cristo…” (Epístola aos Gálatas 3:24)
  • “Havendo Deus outrora falado… pelos profetas, nestes últimos dias nos falou pelo Filho…” (Epístola aos Hebreus 1:1-2)

Portanto, a questão não é simplesmente escolher quais leis obedecer, mas compreender como a Lei se cumpre e se transforma em Cristo.

Este artigo não busca oferecer uma resposta simplista, mas conduzir o leitor por uma jornada bíblica e teológica:

  • explorando o contexto original das leis em Levítico
  • entendendo seus significados espirituais
  • e discernindo como aplicá-las à luz do Novo Testamento
Minha Tese Central

A pergunta “a Bíblia proíbe tatuagens?” não pode ser respondida isolando um versículo. Ela exige uma leitura que vá da letra ao Espírito, do símbolo à realidade, da Lei a Cristo.  Ser cristão significa ser imitador de Jesus Cristo, seguir Seu exemplo!

Como escreveu Agostinho de Hipona:
“Compreender a Escritura é encontrar Cristo nela.”

 

Capítulo 1: O Contexto de Livro de Levítico 19:28 – Marcas de Morte

A aparente proibição das tatuagens em Israel não estava ligada a estética ou expressão pessoal, mas a uma questão profundamente espiritual: a separação do povo de Deus das práticas pagãs ao seu redor.

O Significado Cultural e Religioso

No Antigo Oriente Médio, especialmente entre os cananeus e egípcios, práticas de automutilação e marcação corporal estavam diretamente associadas ao culto aos mortos e à idolatria. Cortes na pele, incisões e marcas permanentes eram frequentemente realizados em rituais de luto, como forma de invocar proteção espiritual, demonstrar devoção a divindades ou estabelecer vínculo com ancestrais.

Essas práticas não eram neutras — eram atos religiosos carregados de significado espiritual. O corpo se tornava um “altar visível” de submissão a entidades espirituais.

Outros textos bíblicos confirmam essa prática:

  • “Então eles clamavam em alta voz e se retalhavam com facas…” (Primeiro Livro dos Reis 18:28)
  • “Não farão calva na cabeça, nem raparão as extremidades da barba, nem farão cortes na carne.” (Livro de Levítico 21:5)
  • “Não vos cortareis, nem fareis calva entre os olhos por causa dos mortos.” (Livro de Deuteronômio 14:1)

Esses textos revelam um padrão: Deus estava proibindo práticas ligadas à morte, idolatria e rituais pagãos.

A Proibição como Separação Espiritual

A ordem divina em Levítico 19:28 precisa ser entendida dentro do contexto da santidade. Israel foi chamado para ser um povo separado:

  • “Sereis santos, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo.” (Livro de Levítico 19:2)

A marca no corpo, naquele contexto, não era uma simples decoração — era um símbolo de pertencimento espiritual. Marcar o corpo era, muitas vezes, declarar submissão a uma divindade pagã.

João Calvino comenta que essas leis tinham como objetivo “remover qualquer vestígio de superstição pagã que pudesse corromper a pureza da adoração a Deus”.

Da mesma forma, Matthew Henry afirma que tais práticas eram proibidas porque “desonravam o corpo e desviavam o coração do verdadeiro Deus”.

O Princípio Teológico: Pertencimento

O ponto central não reside na tinta ou na pele, mas a quem o corpo pertence. No Novo Testamento, esse princípio é reafirmado de maneira ainda mais profunda:

“Acaso não sabeis que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo… e que não sois de vós mesmos?” (1 Coríntios 6:19)

Aqui, o foco muda da proibição cultural para uma verdade espiritual: o corpo do cristão pertence a Deus. Quando um cristão se tatua — mesmo que utilize versículos bíblicos ou o próprio nome de Jesus Cristo —, ele está modificando algo que não lhe pertence: o seu próprio corpo. O apóstolo Paulo deixa claro que as marcas que devemos carregar são aquelas provenientes de nossa união com Cristo, e não marcas feitas por mãos humanas, conforme lemos em Gálatas 6:17.

Questionamentos Importantes

1. Se a proibição estava ligada ao paganismo, ela ainda se aplica hoje?
Depende do princípio. A prática específica estava ligada à idolatria, mas o princípio de santidade e distinção permanece. A questão atual não é apenas “posso?”, mas “isso glorifica a Deus?”.

2. Toda tatuagem tem origem pagã?
Historicamente, muitas tinham contexto religioso, mas hoje nem todas carregam esse significado. No entanto, o cristão deve avaliar intenção, mensagem e impacto espiritual.

3. O Novo Testamento proíbe tatuagens diretamente?
Não há uma proibição direta. Porém, há princípios claros sobre o corpo, santidade, testemunho e consciência (Romanos 12:1; 1 Coríntios 10:31).

4. Fazer uma tatuagem pode afetar meu testemunho cristão?
Sim, dependendo do contexto cultural e da mensagem transmitida. O cristão é chamado a edificar outros, não causar tropeço (Romanos 14:13).

5. Deus olha para o exterior ou para o coração?
Deus vê o coração (1 Samuel 16:7), mas nossas ações externas refletem realidades internas. O exterior não é irrelevante — ele comunica quem somos.

Verdade Aplicada

Deus não está apenas interessado no que fazemos com o corpo, mas no que expressamos através dele. A questão não é simplesmente marcar ou não marcar a pele, mas entender que nossa identidade, nosso valor e nosso pertencimento estão em Deus.

O cristão maduro não vive perguntando “isso é permitido?”, mas sim:
“Isso honra a Deus e reflete que eu pertenço a Ele?”

Capítulo 2: O Contexto de Livro de Levítico 19:19 – A Lei da Mistura

Neste versículo, encontramos três proibições específicas: cruzar espécies diferentes de animais, semear campos com sementes diversas e usar roupas feitas de tecidos mistos (lã e linho). À primeira vista, essas leis podem parecer estranhas ou até irrelevantes para o leitor moderno, mas carregam um profundo significado espiritual dentro da aliança entre Deus e Israel.

O Significado: Ordem, Separação e Santidade

Essas leis pertencem à categoria dos huqqim — estatutos divinos que, mesmo quando não totalmente compreendidos racionalmente, apontam para verdades espirituais mais profundas.

A criação, segundo o relato de Gênesis, foi estruturada por Deus com distinções claras:

  • luz e trevas
  • terra e mar
  • espécies segundo sua própria natureza

Misturar categorias que Deus separou simbolizava, portanto, uma ruptura com a ordem divina estabelecida.

Outras passagens reforçam esse princípio de separação:

  • “Deus não é Deus de confusão, e sim de paz.” (Primeira Epístola aos Coríntios 14:33)
  • “Separou Deus a luz das trevas.” (Livro de Gênesis 1:4)

A ideia central não era agrícola ou têxtil, mas teológica: Deus é um Deus de ordem, distinção e propósito.

O Caso Específico do Shaatnez

A proibição de usar tecidos mistos (lã e linho), conhecida como shaatnez, possui um significado ainda mais específico.

As vestes sacerdotais descritas em:

  • Livro de Êxodo 28:6

eram feitas justamente dessa combinação de materiais. Isso indica que esse tipo de tecido estava associado ao serviço sagrado no tabernáculo.

Portanto, quando um israelita comum vestia essa mistura, ele simbolicamente ultrapassava um limite: estava assumindo externamente algo que não correspondia à sua posição espiritual.

John Gill observa que essas leis “ensinavam Israel a manter distinções claras, evitando confundir o comum com o sagrado”.

Agostinho de Hipona interpretava essas misturas como símbolos de “doutrinas misturadas”, advertindo contra a corrupção da verdade com erro.

A Proibição: Limites entre o Comum e o Sagrado

A intenção de Deus não era restringir arbitrariamente o povo, mas ensinar algo essencial:
nem tudo que é sagrado pode ser apropriado de forma comum.

Esse princípio aparece em outras partes das Escrituras:

  • Nadabe e Abiú ofereceram “fogo estranho” e foram julgados (Livro de Levítico 10:1-2)
  • Uzá tocou na arca sem autorização (Segundo Livro de Samuel 6:6-7)

Esses episódios mostram que a santidade de Deus não deve ser tratada de forma leviana.

O Princípio Espiritual: Integridade e Pureza

Embora essas leis cerimoniais não sejam aplicadas literalmente aos cristãos hoje, o princípio espiritual permanece vivo no Novo Testamento:

  • “Não vos prendais a um jugo desigual com os incrédulos.” (Segunda Epístola aos Coríntios 6:14)
  • “Um pouco de fermento leveda toda a massa.” (Epístola aos Gálatas 5:9)

A mensagem é clara: misturar verdade com erro, santidade com pecado, ou identidade espiritual com valores contrários a Deus gera corrupção.

Conexão com o Tema das Tatuagens

Assim como no capítulo anterior, o foco não reside apenas no elemento físico em si (tecido, tinta ou pele), mas no princípio espiritual por trás da prática. Muitos dizem ser cristãos, mas se recusam a seguir, de fato, a Jesus Cristo! Na época em que Jesus esteve na Terra como homem, as tatuagens já existiam; aliás, elas são muito mais antigas do que a Sua vinda a este mundo. No entanto, em nenhum registro bíblico ou histórico ouvimos que Ele tenha se tatuado. Pelo contrário, Ele nos ordenou a não amar o mundo nem os seus modismos (1 João 2:15-16).

A pergunta central não é apenas sobre o ato externo, mas sobre o que ele representa:

  • Estou refletindo a identidade que Deus me deu?

  • Estou misturando valores espirituais com influências contrárias?

  • Estou amando mais o mundo e seus modismos do que ao meu Jesus?

Questionamentos Importantes

1. Essas leis ainda devem ser obedecidas literalmente hoje?
Não. Elas fazem parte da lei cerimonial de Israel, cumprida em Cristo (Colossenses 2:16-17). Porém, os princípios espirituais por trás delas continuam válidos.

2. Por que Deus se importa com “misturas”?
Porque misturas simbólicas apontam para confusão espiritual. Deus deseja integridade — um coração indiviso (Tiago 1:8).

3. O que significa viver “sem mistura” hoje?
Significa viver com coerência espiritual: fé, comportamento e identidade alinhados com Deus.

4. Como isso se aplica às decisões pessoais, como tatuagens?
Cada decisão deve ser avaliada à luz da identidade cristã. Não é apenas sobre liberdade, mas sobre coerência espiritual.

5. Mistura sempre é algo negativo na Bíblia?
Não em todos os contextos naturais, mas simbolicamente, quando ligada à santidade e identidade espiritual, a mistura frequentemente representa comprometimento indevido.

Verdade Aplicada

Deus nos chama não apenas para evitar o pecado evidente, mas para viver uma vida íntegra, sem duplicidade espiritual.

A verdadeira santidade não está em regras externas, mas em um coração que não mistura sua devoção a Deus com valores contrários ao Seu caráter.

O cristão maduro entende que não foi chamado para viver dividido, mas para refletir, de forma íntegra, a identidade que recebeu em Cristo.

Capítulo 3: Por que a Diferença na Aplicação?

A pergunta inevitável surge ao compararmos os textos anteriores:
por que muitos cristãos consideram inválida a proibição de tecidos mistos, mas ainda debatem ou aplicam a questão das tatuagens?

A resposta não é simples — ela envolve um princípio fundamental da interpretação bíblica: a hermenêutica.

A Chave Hermenêutica: Tipos de Lei

Ao longo da história da teologia cristã, muitos estudiosos entenderam que a Lei dada a Israel possui diferentes dimensões:

  • Lei moral – princípios eternos relacionados ao caráter de Deus
  • Lei cerimonial – práticas simbólicas ligadas ao culto e à pureza ritual
  • Lei civil – normas para a organização da sociedade de Israel

Essa distinção, embora não esteja explicitamente categorizada na Bíblia, é amplamente utilizada para compreender como aplicar o Antigo Testamento hoje.

Tomás de Aquino ensinava que as leis cerimoniais “foram instituídas para prefigurar Cristo e cessaram com a sua vinda”.

Da mesma forma, João Calvino afirmava que a lei cerimonial era “uma sombra das coisas futuras, cujo corpo é Cristo”.

Essa linguagem ecoa diretamente o ensino bíblico:

  • “Estas coisas são sombras do que havia de vir; porém o corpo é de Cristo.” (Epístola aos Colossenses 2:17)
O Cumprimento da Lei em Cristo

O Novo Testamento ensina claramente que a relação do cristão com a Lei mudou radicalmente por meio de Jesus:

  • “Porque o fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê.” (Epístola aos Romanos 10:4)
  • “De maneira que a lei nos serviu de aio para nos conduzir a Cristo…” (Epístola aos Gálatas 3:24-25)

A lei cerimonial, incluindo regulamentos como os de Livro de Levítico 19:19, apontava para uma realidade espiritual que se cumpre em Cristo. Por isso, essas práticas não são mais obrigatórias.

E Onde Entram as Tatuagens?

Aqui está o ponto de tensão:
a proibição de Levítico 19:28 não é tão facilmente categorizada.

Alguns argumentam que ela também é cerimonial, ligada a práticas pagãs específicas — como vimos no capítulo anterior. Outros defendem que ela toca em princípios morais permanentes, especialmente relacionados ao corpo.

O Novo Testamento introduz um princípio crucial:

  • “Ou não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo…?” (Primeira Epístola aos Coríntios 6:19)

No entanto, é importante notar:
esse texto não trata diretamente de tatuagens, mas de imoralidade sexual e pertencimento a Deus.

John Stott alerta que devemos evitar “aplicar textos bíblicos fora de seu contexto original, mesmo com boas intenções”.

Por outro lado, Wayne Grudem destaca que princípios sobre o corpo e santidade ainda devem orientar decisões contemporâneas, mesmo quando não há mandamentos diretos.

O Princípio Apostólico: Liberdade com Responsabilidade

O apóstolo Paulo oferece uma estrutura equilibrada para lidar com questões não explicitamente proibidas:

  • “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas convêm…” (Primeira Epístola aos Coríntios 6:12)
  • “Portanto, quer comais, quer bebais ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus.” (Primeira Epístola aos Coríntios 10:31)

Aqui, a ética cristã amadurece: não se trata apenas de obedecer regras externas, mas de viver com discernimento espiritual. Não andando e sendo dominados pela carne e modismos mundanos segundo descrito em Romanos 7:05.

Questionamentos Importantes

1. Quem decide se algo é lei moral ou cerimonial?
Essa distinção é fruto de estudo teológico e interpretação bíblica. Por isso, há diferentes opiniões entre cristãos sinceros.

2. Se Cristo cumpriu a Lei, ainda precisamos nos preocupar com ela?
Sim, mas de forma diferente. Não como meio de salvação, mas como revelação do caráter de Deus (Mateus 5:17).

3. Por que algumas regras do Antigo Testamento ainda parecem válidas e outras não?
Porque algumas refletem princípios eternos (como justiça e santidade), enquanto outras eram símbolos temporários.

4. É errado usar 1 Coríntios 6:19 para falar de tatuagem?
Não necessariamente, mas deve-se ter cuidado para não tirar o texto do seu contexto original.

5. Como lidar com opiniões diferentes dentro da igreja sobre esse tema?
Com graça, humildade e amor. Romanos 14 ensina a não julgar questões de consciência.

6. O silêncio do Novo Testamento sobre tatuagens significa permissão?
Não automaticamente. Significa que a decisão deve ser guiada por princípios, não por uma regra explícita.

Verdade Aplicada

A maturidade cristã não está em encontrar uma lista definitiva de permissões e proibições, mas em desenvolver discernimento espiritual.

Em Cristo, não vivemos mais sob a Lei como sistema, mas sob a graça — e isso não diminui a responsabilidade, aumenta.

A verdadeira pergunta não é “isso é proibido?”, mas “isso reflete uma vida que pertence a Cristo?”

@DrMFrank

Conclusão: Da Letra ao Espírito

Ao longo deste estudo, percorremos um caminho que começa na Lei e culmina em Cristo — um movimento essencial para compreender corretamente qualquer tema bíblico, incluindo a questão das tatuagens.

No Capítulo 1, vimos que Livro de Levítico 19:28 não tratava de estética, mas de separação espiritual. As marcas no corpo estavam ligadas a práticas pagãs, rituais de morte e identificação com divindades estranhas. Deus, ao proibir tais práticas, estava protegendo a identidade espiritual de Israel como um povo santo.

No Capítulo 2, analisamos Livro de Levítico 19:19 e a chamada “lei da mistura”. Ali, compreendemos que Deus usava símbolos concretos — agricultura, vestimenta e criação — para ensinar um princípio mais profundo: a santidade exige distinção, integridade e ordem. Misturar o que Deus separou era uma linguagem simbólica de confusão espiritual.

No Capítulo 3, enfrentamos a questão central: por que algumas leis parecem ter sido deixadas de lado, enquanto outras continuam sendo debatidas? A resposta está na forma como interpretamos a Bíblia. A distinção entre leis cerimoniais e princípios morais, aliada ao cumprimento da Lei em Cristo, nos mostra que o cristão não vive mais sob o mesmo sistema da antiga aliança:

  • “Estas coisas são sombras do que havia de vir; porém o corpo é de Cristo.” (Epístola aos Colossenses 2:17)
  • “Porque o fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê.” (Epístola aos Romanos 10:4)

Essa jornada nos leva a uma conclusão inevitável:
a Bíblia não pode ser lida de forma fragmentada ou superficial.

Agostinho de Hipona declarou: “O Novo Testamento está oculto no Antigo, e o Antigo é revelado no Novo.”
Isso significa que as leis de Levítico encontram seu verdadeiro significado à luz de Cristo.

Martinho Lutero também enfatizou que a Lei deve conduzir o homem à graça, não à autossuficiência religiosa.

Do Exterior ao Interior

O grande movimento das Escrituras é claro: Deus desloca o foco do exterior para o interior.

  • “Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim.” (Evangelho de Mateus 15:8)
  • “Rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes.” (Livro de Joel 2:13)

No Novo Testamento, a verdadeira marca do povo de Deus não está na pele, mas no coração:

  • “A circuncisão é a do coração, no Espírito…” (Epístola aos Romanos 2:29)

E ainda:

  • “Porque em Cristo Jesus nem circuncisão nem incircuncisão têm valor algum, mas a fé que atua pelo amor.” (Epístola aos Gálatas 5:6)
Liberdade, Consciência e Amor

Diante disso, a questão das tatuagens não pode ser reduzida a um simples “pode ou não pode”. Ela deve ser tratada dentro de um quadro maior: liberdade cristã guiada por princípios espirituais.

  • “Todas as coisas são lícitas, mas nem todas convêm…” (Primeira Epístola aos Coríntios 10:23)
  • “Bem-aventurado aquele que não se condena naquilo que aprova.” (Epístola aos Romanos 14:22)
  • Em meu lugar o que Jesus Cristo faria?

John Wesley ensinava que a vida cristã deve ser guiada por três pilares: Escritura, razão e experiência — sempre submetidos ao amor.

E o amor, segundo o apóstolo Paulo, é o cumprimento da lei:

  • “O amor é o cumprimento da lei.” (Epístola aos Romanos 13:10)

Portanto, a pergunta “a Bíblia proíbe tatuagens?” não pode ser respondida com um versículo isolado. Ela exige:

  • Compreensão do contexto histórico;

  • Interpretação correta da Lei;

  • Entendimento do cumprimento em Cristo;

  • Aplicação dos princípios do Novo Testamento;

  • Seguimento do exemplo de Jesus Cristo.

A resposta mais honesta e bíblica é: se você procura uma proibição literal e direta no Novo Testamento, ela não existe. No entanto, há princípios profundos que devem guiar cada decisão do cristão. Em vez de perguntar se “pode ou não” fazer uma tatuagem, a pergunta correta deveria ser: “Em meu lugar, Jesus faria uma tatuagem?”

Verdade Aplicada Final

O cristianismo não é uma religião de marcas externas, mas de transformação interna.

Deus não está interessado apenas no que está sobre a sua pele, mas no que governa o seu coração.

A verdadeira evidência de santidade não é a ausência de tinta no corpo, mas a presença do Espírito na vida.

  • “Porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus.” (Epístola aos Romanos 8:14) @DrMFrank

📚 Bibliografia

1. Bíblia Sagrada

BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Tradução Almeida Revista e Atualizada. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.


2. Autores Cristãos Citados

Agostinho de Hipona

AGOSTINHO, Santo. Confissões. Tradução de J. Oliveira Santos. São Paulo: Nova Cultural, 1999.


João Calvino

CALVINO, João. Institutas da Religião Cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2006.

CALVINO, João. Comentário sobre o Livro de 1 Reis. São Paulo: Paracletos, 2002.


Tim Keller

KELLER, Timothy. Deuses Falsos: As promessas vazias do dinheiro, sexo e poder. São Paulo: Vida Nova, 2010.
(Original: Counterfeit Gods)


A. W. Tozer

TOZER, Aiden Wilson. O Conhecimento do Santo. São Paulo: Mundo Cristão, 2007.

TOZER, A. W. A Busca de Deus. São Paulo: Mundo Cristão, 2006.


John Piper

PIPER, John. Em Busca de Deus. São Paulo: Cultura Cristã, 2007.


Charles Spurgeon

SPURGEON, Charles Haddon. Sermões Selecionados. São Paulo: PES, 2000.


Dietrich Bonhoeffer

BONHOEFFER, Dietrich. Discipulado. São Leopoldo: Sinodal, 2004.


John Owen

OWEN, John. A Mortificação do Pecado. São Paulo: PES, 2004.


John Wesley

WESLEY, John. Sermões. São Paulo: Vida, 2006.


Martinho Lutero

LUTERO, Martinho. Catecismo Maior e Menor. São Leopoldo: Sinodal, 2007.

Complementando com:

  1. DOUGLAS, J.D. Novo Dicionário da Bíblia. Edições Vida Nova.
  2. WENHAM, Gordon J. The Book of Leviticus (New International Commentary on the Old Testament). Eerdmans.

  3. HARRISON, R. K. Levítico: Introdução e Comentário. Editora Vida Nova.

3. Referências Bíblicas Utilizadas (opcional, mas profissional)

 

Passagens Bíblicas Citadas
  • Êxodo 20:3

  • Levítico 18:21

  • Deuteronômio 8:18; 16:21

  • Juízes 2:13; 3:7

  • 1 Samuel 5:3–4

  • 1 Reis 11:7; 18:21

  • 2 Reis 16:3; 21:6; 23:4–6

  • Salmos 106:37

  • Provérbios 11:28

  • Jeremias 2:20; 7:31

  • Oséias 4:12; 8:14

  • Mateus 6:21, 24

  • Lucas 12:15

  • 1 Timóteo 6:10, 17

  • Romanos 1:23

  • Zacarias 1:3

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